Entrevista: Um bate papo com Marcelo Araújo

11:35

Olá estamos iniciando mais uma fase do Secret Magic, no finalzinho do ano apresentamos a coluna Bate Papo, entrevistas com os autores super fofos que acompanham o blog e que eu acompanho, para dar início o autor Marcelo Araújo, as questões foram enviadas por email e respondidas prontamente por ele, assim como conversamos antes não pode ser pessoalmente esta entrevista e logo farei outra com a leitura do livro A Testinha de Gabá, venham conhecer um pouco mais deste incrível autor. 



1. Quando começou a escrever e porque, acredito que sempre há um propósito para a escrita, uma paixão que nasce com a gente, como foi pra ti? 


Comecei a escrever na minha infância, porém, passei a fazer isso mais seriamente no início da minha fase adulta, por volta dos 18 anos. Naquele momento, surgiram alguns contos que duas décadas mais tarde fariam parte do meu primeiro livro, Não Abra - Contos de Terror, publicado no final de 2008, e que agora chega à sua segunda edição, já que a primeira, com tiragem de mil exemplares, estava esgotada. Desde cedo, me apaixonei pela leitura dos grandes escritores, brasileiros e universais. Creio que isto foi importante para me motivar a querer criar minhas próprias histórias. Acho que é essencial ler bons livros, pois isso te dá uma visão do conhecimento que existe no mundo e ajuda a formar a sua base literária, matéria-prima para criar junto com a imaginação. Como sou jornalista, escrever faz parte da minha vida profissional e foi outro elemento a me ajudar a buscar um texto claro, conciso, direto e que pudesse ser compreendido por qualquer pessoa. Escrever muito no jornalismo - estou neste ramo há 25 anos - contribuiu para aprimorar minha escrita, o que se refletiu, claro, nos trabalhos de ficção. 

2. Sobre Pedaço Malpassado, isso não se faz com pessoas gordinhas que desejam comida no meio da madrugada em plena leitura, me senti dentro da casa da bruxa de João e Maria, assim como no primeiro conto, e desejei comer tudo, acabei só na água em plena madrugada. Como foi a ideia de misturar conto de fadas com o suspense e terror categórico em canibalismo? Sou meio que viciada nisso, até porque irei fazer psicologia forense. 

É interessante que tenha experimentado essas sensações, pois demonstra que o autor conseguiu provocar o leitor e sua imaginação. Falando da questão dos contos de fadas, pra mim, não há uma distância muito grande entre certos clássicos da literatura infantil e o mundo do terror. Várias dessas histórias de crianças, tanto as literárias quanto as do folclore, aquelas que sobrevivem graças à tradição oral, são povoadas de bruxas, monstros, gigantes, duendes, fantasmas e outros seres sobrenaturais assustadores.No meu livro, resolvi brincar com o clássico de João e Maria, Hansel e Gretel no alemão, imortalizado pelos Irmãos Grimm, dando uma roupagem moderna, dentro da perspectiva de escrever uma obra de horror sobre canibalismo. Transformei os personagens, que originalmente eram crianças ingênuas, noutra coisa, que prefiro não contar pra não tirar a surpresa. Quanto à questão da gula, um dos pecados capitais, que permeia meu livro, talvez tenha a ver com meus próprios desejos alimentícios. Calma, não sou nenhum canibal, no entanto, quis usar esse imaginário forte da antropofagia fazendo um paralelo com referências gastronômicas. Nesse ponto, a lembrança da infância atuou com vigor, pois me recordo, quando miúdo, de ficar deliciado ao ouvir a narrativa de como a casa da bruxa era feita com guloseimas. Mexeu com minha cabeça da mesma forma que o Malpassado fez com a sua. Isso ficou por anos na minha mente e até hoje tenho essa imagem de uma casa coberta de bolos, pirulitos e outros doces. Sou um apreciador da culinária. Adoro ir a restaurantes, confeitarias e padarias. Isso, evidentemente, me traz uns quilinhos a mais, o que não é bom pra minha saúde (rs). 

3. No primeiro conto vemos a gula em seu ponto alto, uma pessoa transtornada por comida, a minha curiosidade e dos outros leitores também são, o que continha nelas para fazer ele querer cada vez mais, além do sonífero que o apagava depois das refeições. 

Em alguns momentos dos meus livros gosto de deixar as coisas um pouco nebulosas, não muito claras, não tão evidentes. Isso porque estimula a imaginação do leitor, o que considero importante. A sua pergunta é boa. Há alguma substância estimulante do apetite na comida? Trata-se de algum feitiço? Ou é a própria natureza esfomeada do personagem se revelando com mais intensidade? Você decide. Algumas pessoas já vieram me contar que tiveram surpresa ou mesmo decepção pelo fato de algumas das minhas narrativas acabarem num momento de clímax e suspense máximo, deixando-as na dúvida sobre o que ocorreu. Para mim, seria até uma solução mais fácil criar um final previsível e quadrado, que satisfizesse a ânsia do leitor por todas as revelações, porém considero que deixar caminhos abertos, com múltiplas possibilidades permite que a história não acabe ali no papel e prossiga na cabeça do leitor. É como uma estrada que termina com três ou mais trilhas e você fica se perguntando por onde ir. Não fui o primeiro autor a fazer isso. Grandes nomes da literatura o fizeram. Em filmes de terror é muito comum deixar-se uma dúvida ao fim, sem que você saiba o que ocorrerá exatamente, com uma possibilidade de o mal triunfar. Acho que gera mais terror eventualmente do que apontar nitidamente o que houve. 

4. Segundo conto apresenta jazz e churrasco, duas combinações bem diferentes, mas ficaram perfeitas no contexto apresentado, você se inspira no que te agrada ou varia em pesquisas para a criação de cada livro? 


Obrigado! Jazz e churrasco são duas coisas que curto muito!!! Como você deve ter percebido, o livro é repleto de referências musicais. Eu amo música. Adoro jazz, blues, rock'n'roll, música erudita, som instrumental brasileiro e vários outros gêneros. Inclusive trabalhei anos como repórter de cultura em um jornal em Brasília, escrevendo principalmente sobre música. Gosto de trazer minhas referências pessoais para as histórias, não apenas da música, mas do cinema, das artes em geral e da minha própria vida, mesmo que meus textos não sejam autobiográficos. Quanto ao churrasco, eu tenho tentado nos últimos tempos reduzir o consumo de carne vermelha, que em excesso faz mal. No entanto, sou fascinado pela imagem de uma picanha ou fraldinha malpassada, sangrando, sem dúvida um ponto de partida para escrever esse livro canibal. Lembro que quando ía a uma churrascaria com os amigos sempre gostava de falar ao garçom: "Por favor, um pedaço malpassado". Eis a origem do título do meu segundo livro. 


5. Sobre o outro livro ao qual ganhei de presente também, A Testinha de Gabá, ainda não li então sem muitos spoilers, sei por cima que se trata de bullying um tema bastante complexo hoje em dia, como teve a ideia e o que desejou passar escrevendo sobre esse fato? Adorei os desenhos, é tão bom ver um autor dando sua cara a sua obra. 

A Testinha de Gabá foi uma surpresa que surgiu no caminho enquanto eu finalizava a produção de A Maldição de Fio Vilela, meu terceiro livro. Eu tinha muita vontade de escrever um livro infantil e era estimulado pelo meu amigo James Misse, grande escritor do gênero e dono da editora Pé da Letra, de São Paulo. E no universo infantil a gente sabe o papel da ilustração, até como um elemento para atrair a criança à leitura. Eu gosto de desenhar desde criança, entretanto nunca o fiz de forma profissional. Guardo um monte de rabiscos que eventualmente faço, quando estou com tempo livre, e às vezes eles acabam servindo de base para criar uma história. A criação das imagens para A Testinha de Gabá acabou dando certo, na marra. Mostrei para algumas pessoas que disseram que os desenhos tinham qualidade. Porém, o retorno mais legal foi ouvir que esses desenhos se assemelhavam aos de uma criança. Que bom que você também gostou deles! Pensei que nada seria mais adequado para atingir meu público do que me comunicar numa linguagem semelhante à dele. Comecei a fazer os desenhos do menino Gabá num caderninho e junto veio a história. Foi legal falar do bullying, um problema que existe há séculos mas que só começou a ser observado com mais seriedade nos tempos recentes. No Brasil, veio à tona com aquela tragédia na escola em Realengo, no Rio de Janeiro, quando um rapaz com transtornos mentais, que havia sido vítima do bullying, entrou numa escola e matou 12 adolescentes, tendo depois se suicidado. Infelizmente, em nosso país, os problemas são escondidos debaixo do tapete e só se toma uma providência quando algo de muito grave acontece. Parece que essa situação vem mudando. Tenho ouvido as pessoas falarem de como as crianças têm gostado do meu livro. Se ele puder dar uma contribuição ao debate sobre o tema e ajudar na conscientização, estarei feliz.

Fotos doadas pelo autor, créditos de  Bernardo Rebello e Michelle Souza.

Agradeço novamente pela entrevista meu amigo, estou ansiosa para ler os outros livros, desejo muito sucesso e que vocês leitores do blog adquiram os livros deste grande autor, pois vale muito a pena.
Até a próxima, temos outra entrevista com uma autora fofa e super simpática.
Xoxo

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